Tuesday, October 30, 2007

O Cavaleiro Imperfeito - Sobre o Orgulho

Bom, acredito que uma das mensagens mais óbvias (e importante) do livro é a inutilidade do orgulho.

Em uma parte do livro, quando Sir Lancelot está conversando com a Rainha, ele diz:

"Você não entende o que é querer ser bom nas coisas?(...) Só as pessoas carentes, ou más, ou inferiores têm que ser boas nas coisas."

Essa frase é melhor explicada bem mais para frente na história, quando Sir Lancelot retorna, santificado, da busca pelo Graal. Ao retornar da busca, ele se reúne com o Rei e a Rainha e conta de como lutou com seu filho, Sir Galahad - o único cavaleiro perfeito que conseguiu alcançar o Graal.

"- Enfrentei Galahad com toda destreza que podia, e ele me fez sofrer a queda mais perfeita, Realmente (...) ele me fez sofrer a única queda de minha vida. (...) estava jogado no chão, e Galahad montado em seu cavalo sem dizer uma palavra, quando chegou uma mulher que estava reclusa na ermida perto da qual lutávamos. Ela fez uma mesura e disse "Que Deus esteja convosco, melhor cavaleiro do mundo".

(...)

O Rei e a Rainha esperaram.
Lancelot limpou a garganta e continuou:

- Estou tentando lhes contar sobre meu espírito, se entendem o que quer dizer, e não sobre minhas aventuras. Assim, não posso ser modesto sobre isso. Sou um homem mau, eu sei, mas sempre fui bom nas armas. Era um consolo para minha maldade as vezes, pensar - saber - que eu era o melhor cavaleiro do mundo.

- Então?

- Bem, a dama não falava comigo. (...) A dama olhava para além de mim, para meu filho Galahad, que se afastou a meio galope logo que ela falou. Logo depois a dama também se foi.

- Que coisa horrível de dizer! - exclamou o Rei (...)

- Ela disse o que Deus tinha lhe mandado dizer. Vejam, ela era uma mulher sagrada. (...) mas na ocasião, eu não pude suportar aquilo. Senti como se tivessem arrancado meu suporte, e sabia que ela tinha dito uma simples verdade. Senti como se ela tivesse partido o último pedaço do meu coração."


Nesse trecho vemos que, quando o homem se apega, através do orgulho, em feitos, talentos ou até mesmo posições e poder, ele vai acabar se decepcionando. Por que? Porque tudo é mutável. Tudo está sujeito a mudança, exceto Deus, que é perfeito e imutável.
É na mudança das coisas que o orgulho encontra sua inutilidade.

T.H White - O Cavaleiro Imperfeito

Esse é um livro excelente. Não foi escrito por nenhum santo ou padre, mas chega perto quanto ao conteúdo teológico.

O Cavaleiro Imperfeito é o terceiro livro da série "O Único e Eterno Rei" de T.H White. A série conta a história do rei Arthur de Malory, mas de uma forma mais agradádevel de ler. Pessoalmente, acho a obra de Malory MUITO chata de ler :p

Esse livro tem como foco Sir Lancelot, e como ele se tornou o melhor cavaleiro da Távola Redonda.

Como disse antes, o livro possui um conteúdo teológico denso, mas fácil de se assimilar, pois foi escrito para o público infanto juvenil. Obviamente não vou conseguir "destrinchar" o livro inteiro, mas vou tentar citar as partes mais legais - em um post de cada vez. :D

Monday, October 29, 2007

Suma Teológica

Estou babando nesses livros há mais ou menos umas duas semanas.

Eu quero... mas é caro......

Maldito desemprego!

Monday, October 22, 2007

Random Philosophic Moment:

Fé sem razão leva ao conformismo e ao sofismo (vide algumas seitas por aí...). Razão sem fé leva ao confinamento e a morte da alma.

Como já dizia um monge amigo meu: "A virtude está no meio" :D

Sunday, October 14, 2007

Razão e Fé

Antes de continuar com a Natureza do Bem, de Santo Agostinho, achei que devia tentar esclarecer o dilema Razão X Fé.

Nos dias de hoje, é muito comum ouvir que razão e fé são antagônicas, pois a razão estaria embassada somente no entendimento pelo intelecto humano, enquanto a fé estaria apoiada em dogmas. Eu acredito que isto está errado.

Uma máxima famosa de Santo Agostinho (sim, ele de novo hehe) diz Credo ut Intelligam: Creio para Saber. Para o Bispo de Hipona razão e fé se completam, apesar da última ser mais nobre que a primeira pois, é mais nobre crer em uma verdade do que elaborar racionalmente uma tese sobre os seres que pode ser errônea. Ele diz em seu mais famoso livro: "Senhor, Deus da vedade, será suficiente conhecer essas coisas para te agradar? Infeliz o homem que conhece tudo isso (N.E: a ciência humana) e não te conhece. Feliz daquele que te conhece ainda que ignore o resto. (...) e conhecendo-Te, Te glorificas pelo que és, e Te rende graças, e não se perde em vã reflexões." (Confissões - Livro V).

Para o Santo, a razão é importante, pois poderia levar ao preâmbulo da fé. Mais tarde, isso ficou conhecido na Idade Média como Preambulo Fidei cujo objetivo não era explicar os mistérios de Deus, mas sim tornar os conteúdos expressos nos artigos da fé inteligíveis.

Outra característica que une a fé a razão é o fato de ambas possuírem o mesmo norte: a verdade. A razão busca a verdade através do que pode ser entendido pelo intelecto humano e a fé busca a verdade no que é crível. Uma não deve existir sem o apoio da outra.

"

Saturday, October 13, 2007

A Natureza do Bem - 1

O título original deste livro, escrito por Santo Agostinho (354- 430), é De Natura Boni Contra Manichaeus.

Agostinho escreveu este livro para, como o nome diz, refutar a teoria do mal proposta pelos maniqueus: que toda natureza é má por ser feita de matéria, que seria o cárcere do espírito. Ele próprio foi adepto da seita por um tempo, antes de se converter.

Hoje vou apenas dar uma visão geral do livro:


Santo Agostinho parte da premissa que toda natureza é boa pelo simples fato de ser. Porém, como toda natureza foi criada a partir do nada por Deus, esta é corruptível.

A corrupção dos seres já havia sido definida por Aristóteles como "a transformação do ser em não-ser."1 Agostinho segue essa mesma linha de pensamento.

Agostinho diz que toda criatura possui um modo, uma espécie e uma ordem. Séculos depois, São Tomás de Aquino (1225-1274) "pergunta-se se é correta a tríplice distinção de Agostinho e conclui que as coisas não poderiam ser de outra forma, pois essas três realidade integram o bem de cada natureza. (...)Toda criatura possui uma essência limitada e recebida (modus), mas também é uma perfeição formal (species) e aponta para um fim (ordo)"2

Segundo Agostinho, quanto maior o modo, espécie e ordem melhor sua natureze e vice-versa. Onde não existe ordem, modo e espécie, também não existe natureza. O mal seria uma privação de um bem da natureza do ser, diminuindo o modo, espécie e ordem - transformando o ser em não-ser, como afirmou Aristóteles.

Para Agostinho, a única natureza incorruptível e imutável é Deus, pois Ele ordenou, especificou e moderou todas as coisas. Tudo o que Deus fez do nada é corruptível, mas não são assim as "coisas geradas d'Ele, porque seriam o que é Deus mesmo"3, ou seja, para o Santo, Jesus Cristo é também incorruptível e imutável, pois foi gerado de Deus e não a partir do nada. Vou falar disso mais para frente.


1 - Aristóteles, Metafísica.
2 - Tomás de Aquino, De Bono.
3 - Santo Agostinho, A Natureza do Bem, Cap. 10.