Homo Ferox (T.H White - O Livro de Merlin)
Esse é o quinto e último livro da saga. A melhor parte é quando o Merlin está tentando encontrar uma nova definição para o Homo Sapiens, porque de Sapiens o Homem não tem nada...
Uma vez eu disse para minha mãe que eu odiava a humanidade. Ela chilicou e ameaçou me colocar na terapia. Mas depois de ler esse livro, eu me sinto normal de novo! :D
Bom, nessa parte do livro, Merlin e alguns animais amigos do Rei estão conversando com Arthur sobre qual nome é mais adequado para a espécie humana:
"- A primeira sugestão - disse Merlim - foi naturalmente 'ferox', já que o homem é o mais feroz dos animais.
- É curioso você mencionar 'ferox'. pensava nessa palavra uma hora atrás. mas você está exagerando, é claro, quando diz que o homem é mais feroz que um tigre.
- Estou?
- Sempre achei que os homens fossem, em geral, decentes...
Merlim tirou os óculos, suspirou fundo, poliu suas lentes, colocou- os novamente e examinou seu discípulo com curiosidade, como se a qualquer momento começassem a crescer nele umas orelhas pontudas, macias e peludas.
- Tente se lembrar da última vez que você saiu para dar uma volta. - Sugeriu o mago, suavemente.
- Uma volta?
- Sim, um passeio pelas trilhas rurais inglesas. Lá vai o 'Homo Sapiens', despreocupado, na fresca da tarde. Imagine a cena. Lá está um melro cantando nos ramos. Será que ele fica em silêncio e voa para longe com uma maldição? Nem pensar. Canta ainda mais alto e se empoleira no ombro dele. E por ali vai um coelho mascando a relva fresca. Será que ele dispara aterrorizado para dentro de sua toca? De jeito nenhum. Vai dando pulinhos na direção dele. Por lá passeiam o arganaz, a cobra- coral, a raposa, o ouriço e o texugo. Será que se escondem ou aceitam a presença dele? (...) Não há um humilde animal na Inglaterra que não fuja da sombra do homem, como uma alma queimada foge do purgatório. Nem um mamífero, nem um peixe, nem um pássaro. É preciso muita coisa, pode acreditar, para ser temido por todos elementos que existem.
'E não pense - acrescentou rapidamente, pousando a mão no joelho de Arthur - nem imagine que eles fogem da presença uns dos outros. Se uma raposa passasse na trilha, talvez o coelho disparasse, mas o pássaro na árvore e o resto dos animais aceitariam sua presença. Se um gavião voasse por ali, talvez o melro se escondesse, mas a raposa e os demais permitiriam sua chegada. Só o Homem, só o principal sócio da Sociedade da Invenção da Crueldade para com os Animais, apenas ele, é temido por todas as coisas vivas. (...)
- 'Homo Ferox' - continuou Merlin, sacudindo a cabeça - essa raridade da natureza, um animal que mata por prazer. (...) 'Homo ferox', o inventor da Crueldade Contra os Animais, que se dá o trabalho de treinar outros animais para matar, que queima ratos vivos para que seus guinchos intimidem os outros, que forçadamente degenera o fígado dos gansos domésticos para produzir uma comida deliciosa para si, que serra os chifres nascentes dos gados por conta da conveniência de transportá-los, que cega pintassilgos com uma agulha para fazê-los cantar, que cozinha lagostas e camarões vivos apesar de escutar seus pios desesperados, que ataca os de sua própria espécie na guerra (...) Sim, você está certo ao perguntar se o homem pode ser adequadamente descrito como 'ferox', pois certamente a palavra, em seu sentido natural de vida selvagem entre animais decentes, jamais deveria ser aplicada a tal criatura."
Sem comentários aqui. O texto já diz tudo.
No próximo post vou colocar os outros nomes escolhidos por Merlin e os outros animais para a nossa 'nobre' espécie. Se achou que esse já era ruim, ainda não viu nada :D
Uma vez eu disse para minha mãe que eu odiava a humanidade. Ela chilicou e ameaçou me colocar na terapia. Mas depois de ler esse livro, eu me sinto normal de novo! :D
Bom, nessa parte do livro, Merlin e alguns animais amigos do Rei estão conversando com Arthur sobre qual nome é mais adequado para a espécie humana:
"- A primeira sugestão - disse Merlim - foi naturalmente 'ferox', já que o homem é o mais feroz dos animais.
- É curioso você mencionar 'ferox'. pensava nessa palavra uma hora atrás. mas você está exagerando, é claro, quando diz que o homem é mais feroz que um tigre.
- Estou?
- Sempre achei que os homens fossem, em geral, decentes...
Merlim tirou os óculos, suspirou fundo, poliu suas lentes, colocou- os novamente e examinou seu discípulo com curiosidade, como se a qualquer momento começassem a crescer nele umas orelhas pontudas, macias e peludas.
- Tente se lembrar da última vez que você saiu para dar uma volta. - Sugeriu o mago, suavemente.
- Uma volta?
- Sim, um passeio pelas trilhas rurais inglesas. Lá vai o 'Homo Sapiens', despreocupado, na fresca da tarde. Imagine a cena. Lá está um melro cantando nos ramos. Será que ele fica em silêncio e voa para longe com uma maldição? Nem pensar. Canta ainda mais alto e se empoleira no ombro dele. E por ali vai um coelho mascando a relva fresca. Será que ele dispara aterrorizado para dentro de sua toca? De jeito nenhum. Vai dando pulinhos na direção dele. Por lá passeiam o arganaz, a cobra- coral, a raposa, o ouriço e o texugo. Será que se escondem ou aceitam a presença dele? (...) Não há um humilde animal na Inglaterra que não fuja da sombra do homem, como uma alma queimada foge do purgatório. Nem um mamífero, nem um peixe, nem um pássaro. É preciso muita coisa, pode acreditar, para ser temido por todos elementos que existem.
'E não pense - acrescentou rapidamente, pousando a mão no joelho de Arthur - nem imagine que eles fogem da presença uns dos outros. Se uma raposa passasse na trilha, talvez o coelho disparasse, mas o pássaro na árvore e o resto dos animais aceitariam sua presença. Se um gavião voasse por ali, talvez o melro se escondesse, mas a raposa e os demais permitiriam sua chegada. Só o Homem, só o principal sócio da Sociedade da Invenção da Crueldade para com os Animais, apenas ele, é temido por todas as coisas vivas. (...)
- 'Homo Ferox' - continuou Merlin, sacudindo a cabeça - essa raridade da natureza, um animal que mata por prazer. (...) 'Homo ferox', o inventor da Crueldade Contra os Animais, que se dá o trabalho de treinar outros animais para matar, que queima ratos vivos para que seus guinchos intimidem os outros, que forçadamente degenera o fígado dos gansos domésticos para produzir uma comida deliciosa para si, que serra os chifres nascentes dos gados por conta da conveniência de transportá-los, que cega pintassilgos com uma agulha para fazê-los cantar, que cozinha lagostas e camarões vivos apesar de escutar seus pios desesperados, que ataca os de sua própria espécie na guerra (...) Sim, você está certo ao perguntar se o homem pode ser adequadamente descrito como 'ferox', pois certamente a palavra, em seu sentido natural de vida selvagem entre animais decentes, jamais deveria ser aplicada a tal criatura."
Sem comentários aqui. O texto já diz tudo.
No próximo post vou colocar os outros nomes escolhidos por Merlin e os outros animais para a nossa 'nobre' espécie. Se achou que esse já era ruim, ainda não viu nada :D

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