Tuesday, November 06, 2007

Homo impoliticus (T.H White - O Livro de Merlin)

Ok, último post sobre T.H White:

"- 'Impoliticus' - disse Merlin. - 'Homo impoliticus'. Você se lembra que Aristóteles nos definiu como animais políticos. O texugo sugeriu que examinássemos isso e, depois que examinamos sua política, 'impoliticus' nos pareceu ser a única palavra usável.

- Prossiga, por favor.

- Descobrimos que as idéias políticas do 'Homo ferox' eram de dois tipos: ou os problemas podiam ser resolvidos pela força ou pela argumentação. os homens-formigas do futuro, que acreditam na força, acham que podem determinar se duas vezes dois é quatro derrubando as pessoas que não concordam. Os democratas, que deverão acreditar na argumentação, acham que todos os homens têm direito a uma opinião, porque todos nascem iguais: 'Sou um homem tão bom quanto você' é a primeira exclamação institiva do homem que não o é.

- Se não podem confiar na força ou no argumento - disse o rei - não vejo o que possa ser feito.

- Nem força, nem argumeto, nem opinião - disse Merlin com a maior sinceridade - são pensamentos. Um argumento é apenas a exibição da força mental, uma espécie de esgrima com pontos para obter uma vitória, não a verdade. As opiniões são os becos sem saída dos homens preguiçosos ou estúpidos, que são incapazes de pensar. Se um verdadeiro político alguma vez refletir realmente sobre nosso tema sem paixão, até o 'Homo stultus' será compelido a aceitar suas descobertas no final. A opinião jamais deve ser comparada a verdade. Na atualidade, entretanto, o 'Homo impoliticus' se contenta ou em argumentar com opiniões ou em lutar com os punhos, em vez de esperar descobrir a verdade com sua cabeça. Vai demorar um milhão de anos antes que a massa dos homens possa ser chamada de animais políticos.

- Então, o que somos nós agora?

- Descobrimos que hoje em dia a raça humana se divide politicamente em um sábio, nove patifes e noventa idiotas entre cada cem. Isto é, para um observador otimista. Os nove patifes se reúnem sob a bandeira do maior patife entre eles, e se tornam 'políticos'; o sábio se afasta, pois sabe que está irremediavelmente em minoria, e se devota a matemática, a filosofia ou a poesia. Enquanto isso, os noventa idiotas se arrastam atrás da bandeira dos nove vilões, conforme sua escolha, através dos labirintos da cavilação, da malícia e da guerra. É agradável comandar, observa Sanncho Pança, até mesmo um rebanho de ovelhas, e é por isso que os políticos levantam suas bandeiras. Para as ovelhas tambéem é mais ou menos a mesma coisa, seja qual for a bandeira. Se for uma democracia, os nove patifes viram membros do parlamento; se for fascismo, se tornam líderes partidários; se for comunismo, viram comissários. Nada será diferente, salvo o nome. Os idiotas continuam idiotas, os patifes ainda lideram e o resto ainda é exploração. Quanto ao sábio, seu destino é o mesmo, seja qual for a ideologia. Na democracia ele vai morrer de fome em um sótão, sob o fascismo vai parar num campo de concentração e sob o comunismo será liquidado. Esta é uma constatação otimista, mas no todo, científica, dos hábitos do 'Homo impoliticus'.

(...)

- Até mesmo a definição grega de 'Anthropos', Aquele que Olha para Cima, não é precisa. Depois da adolescência o homem raramente olha para cima de sua própria altura."


Novamente, sem necessidade de comentários.

Saturday, November 03, 2007

Homo Stultus (T.H White - O Livro de Merlin)

Continuando o post anterior, segue mais um 'apelido' para a humanidade:

" - A razão - disse [Merlin] - pela qual tivemos dúvidas sobre usar 'ferox' foi porque Archimedes sugeriu que 'stultus' [N.T: estúpido] era mais adequado.

- 'Stultus'? Pensei que fôssemos inteligentes.

- Em uma das miseráveis guerras quando eu era jovem - disse o mágico -, achou-se necessário fazer com que o povo da Inglaterra recebesse um conjunto de cartões impressos que lhe permitisse comprar comida. Esses cartões tinham que ser preenchidos a mão antes da comida ser comprada. Cada indivíduo tinha que escrever um número numa parte do cartão, seu nome em outra parte e o nome do vendedor de comida numa terceira parte. Tinha que cumprir essas três façanhas intelectuais: um número e dois nomes, ou então não poderia receber a comida e morreria de fome. Sua vida dependia dessa operação. No fim se descobriu que dois terços da população era incapaz de cumprir a sequência sem erros. E essas pessoas - nos diz a Igreja Católica - são dotadas de alma imortal!

(...)

Arthur objetou:

- Isso não prova muito. (...) Se fosse qualquer outro animal, seriam completamente incapazes de escrever.

(...)

- Bem o inseto chamado 'Balaninus elephas' é capaz de furar bolotas, mas é incapaz de escrever. o homem pode escrever, mas não pode furar bolotas. Essas são suas especializações. A diferença importante, entretanto, é que enquanto o 'Balaninus' fura seus buracos com a maior eficiência, o homem, como já mostrei, não escreve com eficiência nenhuma. É por isso que eu digo que, espécie por espécie, o homem é mais ineficiente, mais 'stultus' que seus colegas animais. Realmente, nenhum observador sensível poderia esperar o contrário. O homem está há tão pouco tempo no globo que não se pode esperar que tenha muita maestria."


Aqui eu concordo em parte. Não acredito que o fato de o homem não possuir uma "especialização" possa classificá-lo como 'stultus'. O ser humano é a única espécie em que cada indivíduo possui uma especialização.

Se uma pessoa não consegue escrever com maestria, isso não impede que ela tenha outro talento. Se a raça humana possuísse UMA especialização não seríamos diferentes de um bando de cabras...

O homem que se torna 'stultus' é o 'Homo ferox' (descrito no post anterior), pois este possui como única especialização matar, destruir ou torturar. Essa 'ferocidade' não precisa estar voltada apenas para os animais, como está descrito no post anterior.

Voltando para os textos de Santo Agostinho (A Natureza do Bem) que diz que toda criação possui Modo, Espécia e Ordem, o 'Homo ferox' pode ser descrito como um ser humano (Espécie) que escolheu não aproveitar seu potencial (Modo) e desviou-se deliberadamente de seu fim (Ordem). Por essa escolha ter sido feita por ele através de seu livre arbítrio, este indivíduo pode ser classificado também como 'Homo stultus'

Thursday, November 01, 2007

Homo Ferox (T.H White - O Livro de Merlin)

Esse é o quinto e último livro da saga. A melhor parte é quando o Merlin está tentando encontrar uma nova definição para o Homo Sapiens, porque de Sapiens o Homem não tem nada...

Uma vez eu disse para minha mãe que eu odiava a humanidade. Ela chilicou e ameaçou me colocar na terapia. Mas depois de ler esse livro, eu me sinto normal de novo! :D

Bom, nessa parte do livro, Merlin e alguns animais amigos do Rei estão conversando com Arthur sobre qual nome é mais adequado para a espécie humana:

"- A primeira sugestão - disse Merlim - foi naturalmente 'ferox', já que o homem é o mais feroz dos animais.

- É curioso você mencionar 'ferox'. pensava nessa palavra uma hora atrás. mas você está exagerando, é claro, quando diz que o homem é mais feroz que um tigre.

- Estou?

- Sempre achei que os homens fossem, em geral, decentes...

Merlim tirou os óculos, suspirou fundo, poliu suas lentes, colocou- os novamente e examinou seu discípulo com curiosidade, como se a qualquer momento começassem a crescer nele umas orelhas pontudas, macias e peludas.

- Tente se lembrar da última vez que você saiu para dar uma volta. - Sugeriu o mago, suavemente.

- Uma volta?

- Sim, um passeio pelas trilhas rurais inglesas. Lá vai o 'Homo Sapiens', despreocupado, na fresca da tarde. Imagine a cena. Lá está um melro cantando nos ramos. Será que ele fica em silêncio e voa para longe com uma maldição? Nem pensar. Canta ainda mais alto e se empoleira no ombro dele. E por ali vai um coelho mascando a relva fresca. Será que ele dispara aterrorizado para dentro de sua toca? De jeito nenhum. Vai dando pulinhos na direção dele. Por lá passeiam o arganaz, a cobra- coral, a raposa, o ouriço e o texugo. Será que se escondem ou aceitam a presença dele? (...) Não há um humilde animal na Inglaterra que não fuja da sombra do homem, como uma alma queimada foge do purgatório. Nem um mamífero, nem um peixe, nem um pássaro. É preciso muita coisa, pode acreditar, para ser temido por todos elementos que existem.
'E não pense - acrescentou rapidamente, pousando a mão no joelho de Arthur - nem imagine que eles fogem da presença uns dos outros. Se uma raposa passasse na trilha, talvez o coelho disparasse, mas o pássaro na árvore e o resto dos animais aceitariam sua presença. Se um gavião voasse por ali, talvez o melro se escondesse, mas a raposa e os demais permitiriam sua chegada. Só o Homem, só o principal sócio da Sociedade da Invenção da Crueldade para com os Animais, apenas ele, é temido por todas as coisas vivas. (...)

- 'Homo Ferox' - continuou Merlin, sacudindo a cabeça - essa raridade da natureza, um animal que mata por prazer. (...) 'Homo ferox', o inventor da Crueldade Contra os Animais, que se dá o trabalho de treinar outros animais para matar, que queima ratos vivos para que seus guinchos intimidem os outros, que forçadamente degenera o fígado dos gansos domésticos para produzir uma comida deliciosa para si, que serra os chifres nascentes dos gados por conta da conveniência de transportá-los, que cega pintassilgos com uma agulha para fazê-los cantar, que cozinha lagostas e camarões vivos apesar de escutar seus pios desesperados, que ataca os de sua própria espécie na guerra (...) Sim, você está certo ao perguntar se o homem pode ser adequadamente descrito como 'ferox', pois certamente a palavra, em seu sentido natural de vida selvagem entre animais decentes, jamais deveria ser aplicada a tal criatura."




Sem comentários aqui. O texto já diz tudo.
No próximo post vou colocar os outros nomes escolhidos por Merlin e os outros animais para a nossa 'nobre' espécie. Se achou que esse já era ruim, ainda não viu nada :D