Homo impoliticus (T.H White - O Livro de Merlin)
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"- 'Impoliticus' - disse Merlin. - 'Homo impoliticus'. Você se lembra que Aristóteles nos definiu como animais políticos. O texugo sugeriu que examinássemos isso e, depois que examinamos sua política, 'impoliticus' nos pareceu ser a única palavra usável.
- Prossiga, por favor.
- Descobrimos que as idéias políticas do 'Homo ferox' eram de dois tipos: ou os problemas podiam ser resolvidos pela força ou pela argumentação. os homens-formigas do futuro, que acreditam na força, acham que podem determinar se duas vezes dois é quatro derrubando as pessoas que não concordam. Os democratas, que deverão acreditar na argumentação, acham que todos os homens têm direito a uma opinião, porque todos nascem iguais: 'Sou um homem tão bom quanto você' é a primeira exclamação institiva do homem que não o é.
- Se não podem confiar na força ou no argumento - disse o rei - não vejo o que possa ser feito.
- Nem força, nem argumeto, nem opinião - disse Merlin com a maior sinceridade - são pensamentos. Um argumento é apenas a exibição da força mental, uma espécie de esgrima com pontos para obter uma vitória, não a verdade. As opiniões são os becos sem saída dos homens preguiçosos ou estúpidos, que são incapazes de pensar. Se um verdadeiro político alguma vez refletir realmente sobre nosso tema sem paixão, até o 'Homo stultus' será compelido a aceitar suas descobertas no final. A opinião jamais deve ser comparada a verdade. Na atualidade, entretanto, o 'Homo impoliticus' se contenta ou em argumentar com opiniões ou em lutar com os punhos, em vez de esperar descobrir a verdade com sua cabeça. Vai demorar um milhão de anos antes que a massa dos homens possa ser chamada de animais políticos.
- Então, o que somos nós agora?
- Descobrimos que hoje em dia a raça humana se divide politicamente em um sábio, nove patifes e noventa idiotas entre cada cem. Isto é, para um observador otimista. Os nove patifes se reúnem sob a bandeira do maior patife entre eles, e se tornam 'políticos'; o sábio se afasta, pois sabe que está irremediavelmente em minoria, e se devota a matemática, a filosofia ou a poesia. Enquanto isso, os noventa idiotas se arrastam atrás da bandeira dos nove vilões, conforme sua escolha, através dos labirintos da cavilação, da malícia e da guerra. É agradável comandar, observa Sanncho Pança, até mesmo um rebanho de ovelhas, e é por isso que os políticos levantam suas bandeiras. Para as ovelhas tambéem é mais ou menos a mesma coisa, seja qual for a bandeira. Se for uma democracia, os nove patifes viram membros do parlamento; se for fascismo, se tornam líderes partidários; se for comunismo, viram comissários. Nada será diferente, salvo o nome. Os idiotas continuam idiotas, os patifes ainda lideram e o resto ainda é exploração. Quanto ao sábio, seu destino é o mesmo, seja qual for a ideologia. Na democracia ele vai morrer de fome em um sótão, sob o fascismo vai parar num campo de concentração e sob o comunismo será liquidado. Esta é uma constatação otimista, mas no todo, científica, dos hábitos do 'Homo impoliticus'.
(...)
- Até mesmo a definição grega de 'Anthropos', Aquele que Olha para Cima, não é precisa. Depois da adolescência o homem raramente olha para cima de sua própria altura."
Novamente, sem necessidade de comentários.
"- 'Impoliticus' - disse Merlin. - 'Homo impoliticus'. Você se lembra que Aristóteles nos definiu como animais políticos. O texugo sugeriu que examinássemos isso e, depois que examinamos sua política, 'impoliticus' nos pareceu ser a única palavra usável.
- Prossiga, por favor.
- Descobrimos que as idéias políticas do 'Homo ferox' eram de dois tipos: ou os problemas podiam ser resolvidos pela força ou pela argumentação. os homens-formigas do futuro, que acreditam na força, acham que podem determinar se duas vezes dois é quatro derrubando as pessoas que não concordam. Os democratas, que deverão acreditar na argumentação, acham que todos os homens têm direito a uma opinião, porque todos nascem iguais: 'Sou um homem tão bom quanto você' é a primeira exclamação institiva do homem que não o é.
- Se não podem confiar na força ou no argumento - disse o rei - não vejo o que possa ser feito.
- Nem força, nem argumeto, nem opinião - disse Merlin com a maior sinceridade - são pensamentos. Um argumento é apenas a exibição da força mental, uma espécie de esgrima com pontos para obter uma vitória, não a verdade. As opiniões são os becos sem saída dos homens preguiçosos ou estúpidos, que são incapazes de pensar. Se um verdadeiro político alguma vez refletir realmente sobre nosso tema sem paixão, até o 'Homo stultus' será compelido a aceitar suas descobertas no final. A opinião jamais deve ser comparada a verdade. Na atualidade, entretanto, o 'Homo impoliticus' se contenta ou em argumentar com opiniões ou em lutar com os punhos, em vez de esperar descobrir a verdade com sua cabeça. Vai demorar um milhão de anos antes que a massa dos homens possa ser chamada de animais políticos.
- Então, o que somos nós agora?
- Descobrimos que hoje em dia a raça humana se divide politicamente em um sábio, nove patifes e noventa idiotas entre cada cem. Isto é, para um observador otimista. Os nove patifes se reúnem sob a bandeira do maior patife entre eles, e se tornam 'políticos'; o sábio se afasta, pois sabe que está irremediavelmente em minoria, e se devota a matemática, a filosofia ou a poesia. Enquanto isso, os noventa idiotas se arrastam atrás da bandeira dos nove vilões, conforme sua escolha, através dos labirintos da cavilação, da malícia e da guerra. É agradável comandar, observa Sanncho Pança, até mesmo um rebanho de ovelhas, e é por isso que os políticos levantam suas bandeiras. Para as ovelhas tambéem é mais ou menos a mesma coisa, seja qual for a bandeira. Se for uma democracia, os nove patifes viram membros do parlamento; se for fascismo, se tornam líderes partidários; se for comunismo, viram comissários. Nada será diferente, salvo o nome. Os idiotas continuam idiotas, os patifes ainda lideram e o resto ainda é exploração. Quanto ao sábio, seu destino é o mesmo, seja qual for a ideologia. Na democracia ele vai morrer de fome em um sótão, sob o fascismo vai parar num campo de concentração e sob o comunismo será liquidado. Esta é uma constatação otimista, mas no todo, científica, dos hábitos do 'Homo impoliticus'.
(...)
- Até mesmo a definição grega de 'Anthropos', Aquele que Olha para Cima, não é precisa. Depois da adolescência o homem raramente olha para cima de sua própria altura."
Novamente, sem necessidade de comentários.
