Sunday, July 27, 2008

Ibn Sina - Kteb al Nafs

Ibn Sina (ou Avicena, como é mais conhecido por aqui) foi um filósofo persa do século X/XI d.C. Seu nome completo era Abu Ali Al Hussayn Ibn Abd Allah Ibn Al Hasan Ibn Ali Ibn Sina. Sim, era um nome estupidamente grande :D

Uma de suas obras mais famosas foi o Kteb al Nafs, ou o Livro da Alma, no qual ele apresenta a melhor imagem da alma humana até hoje.

Ele escreveu muitos outros livros, chegou a atingir 276 obras no catálogo de Anawati. Entre os mais famosos está também o Al Shifa, uma enciclopédia que agrupava quase todo conhecimento de sua época.

Mas, deixando o Al-Shifa um pouco de lado, o post é sobre a imagem da alma humana feita por Ibn Sina no Kteb al Nafs.

Ibn Sina propôs que a alma possui dois lados: um voltado para o corpo e é encarregado da faculdade do agir e outro voltado para os princípios supremos e é encarregado da faculdade de conhecer.

Assim temos duas faculdades da alma: o intelecto prático (voltado para o corpo) e o intelecto teórico (voltado para a alma). Os dois, formam algo uno, mas que relacionam duas realidades distintas sendo uma acima (teórica) e outra abaixo (prática).

Segundo Ibn Sina, "pelo lado inferior nascem os hábitos morais" e "do lado superior nascem as ciências".

Baseado nisso, Ibn Sina define a filosofia em:

"A filosofia tem como fim informar acerca das verdades de todas as coisas, na medida do possível, ao homem.

As coisas existentes, por sua vez, existem sem depender de nossa vontade ou por nossa vontade e atividade. Ao conhecimento das coisas pertencentes a primeira divisão, chamamos de filosofia teórica e ao conhecimento das coisas pertencentes a segunda divisão, chamamos de filosofia prática.

O fim da filosofia teórica é preparar a alma para o conhecer e o fim da filosofia prática é aperfeiçoar a alma, não para o simples conhecer, mas conhecer o que deve ser feito e fazê-lo. Assim, o fim da filosofia teórica é a aquisição de uma opinião que não é prática, ao passo que o fim da filosofia prática é conhecer uma opinião prática.

Na direção e comando do corpo está o intelecto prãtico, que dirige o homem nos seus atos particulares tais como ações morais e políticas, acriação das artes e outrs ações realizadas em sociedade. Na outra direção, o intelecto teórico busca o conhecimento e as verdades supremas. Se, por um lado, o intelecto prático deve ser guiado pelo intelecto teórico, por outro, deve guiar todas as outras faculdades da alma e não se deixar guiar por elas. Se isto acontecer, corre-se o risco de criar hábitos morais vis por uma inversão de hierarquias de faculdades.

Assim, o intelecto prático guia o corpo, mas não o faz de modo totalmente independente do intelecto teórico, pois este, em conexão com o lado superior e sob os influxos da inteligência agente, recebe e adquire constantemente o efeito do que está acima dele, para que a ação humana se guie pela verdade, em vista do bem." – Ibn Sina

Sunday, January 27, 2008

Joseph von Hammer - História dos Assassinos

Joseph von Hammer foi um orientalista austríaco que escreveu A História dos Assassinos, em 1818. A obra atingiu um número enorme de leitores na época, pois no começo do século XIX houve um surto de interesse na Europa pela seita dos Assassinos devido, principalmente, a Revolução Francesa e suas decorrências, que fizeram reviver o interesse público pela conspiração e pelo assassínio.

A obra de Von Hammer se baseou em fontes orientais e tinha uma linguagem bastante agressiva para a época. Uma advertência contra "a perniciosa influência das sociedades secretas (...) e (...) a pavorosa prostituição da religião aos horrores da ambição desenfreada."

Essa é de longe a citação mais legal de todos os tempos :D

A descrição que ele fez da Seita dos Assassinos é muito legal! Tão boa que pode, muito bem, ser aplicada em algumas seitas do dia de hoje, do tipo que usa religião como pretexto para alienar o povo... :p

"(...) a união de impostores e incautos que, sob a máscara de um credo mais austero e moralidade mais severa, solapava toda religião e moralidade."

Isso é compreender a essência das coisas. Qualquer religião que seja boa, não vai deixar de ser porque um punhado de gente a usa para um propósito mau pois, como von Hammer disse, essa "religião" é apenas uma máscara para disfarçar de bom algo que é podre. E graças a isso, muitas vezes, o que é bom acaba sendo taxado de podre...

É a esupidez e hipocrisia humana, que domina o mundo...

Tuesday, November 06, 2007

Homo impoliticus (T.H White - O Livro de Merlin)

Ok, último post sobre T.H White:

"- 'Impoliticus' - disse Merlin. - 'Homo impoliticus'. Você se lembra que Aristóteles nos definiu como animais políticos. O texugo sugeriu que examinássemos isso e, depois que examinamos sua política, 'impoliticus' nos pareceu ser a única palavra usável.

- Prossiga, por favor.

- Descobrimos que as idéias políticas do 'Homo ferox' eram de dois tipos: ou os problemas podiam ser resolvidos pela força ou pela argumentação. os homens-formigas do futuro, que acreditam na força, acham que podem determinar se duas vezes dois é quatro derrubando as pessoas que não concordam. Os democratas, que deverão acreditar na argumentação, acham que todos os homens têm direito a uma opinião, porque todos nascem iguais: 'Sou um homem tão bom quanto você' é a primeira exclamação institiva do homem que não o é.

- Se não podem confiar na força ou no argumento - disse o rei - não vejo o que possa ser feito.

- Nem força, nem argumeto, nem opinião - disse Merlin com a maior sinceridade - são pensamentos. Um argumento é apenas a exibição da força mental, uma espécie de esgrima com pontos para obter uma vitória, não a verdade. As opiniões são os becos sem saída dos homens preguiçosos ou estúpidos, que são incapazes de pensar. Se um verdadeiro político alguma vez refletir realmente sobre nosso tema sem paixão, até o 'Homo stultus' será compelido a aceitar suas descobertas no final. A opinião jamais deve ser comparada a verdade. Na atualidade, entretanto, o 'Homo impoliticus' se contenta ou em argumentar com opiniões ou em lutar com os punhos, em vez de esperar descobrir a verdade com sua cabeça. Vai demorar um milhão de anos antes que a massa dos homens possa ser chamada de animais políticos.

- Então, o que somos nós agora?

- Descobrimos que hoje em dia a raça humana se divide politicamente em um sábio, nove patifes e noventa idiotas entre cada cem. Isto é, para um observador otimista. Os nove patifes se reúnem sob a bandeira do maior patife entre eles, e se tornam 'políticos'; o sábio se afasta, pois sabe que está irremediavelmente em minoria, e se devota a matemática, a filosofia ou a poesia. Enquanto isso, os noventa idiotas se arrastam atrás da bandeira dos nove vilões, conforme sua escolha, através dos labirintos da cavilação, da malícia e da guerra. É agradável comandar, observa Sanncho Pança, até mesmo um rebanho de ovelhas, e é por isso que os políticos levantam suas bandeiras. Para as ovelhas tambéem é mais ou menos a mesma coisa, seja qual for a bandeira. Se for uma democracia, os nove patifes viram membros do parlamento; se for fascismo, se tornam líderes partidários; se for comunismo, viram comissários. Nada será diferente, salvo o nome. Os idiotas continuam idiotas, os patifes ainda lideram e o resto ainda é exploração. Quanto ao sábio, seu destino é o mesmo, seja qual for a ideologia. Na democracia ele vai morrer de fome em um sótão, sob o fascismo vai parar num campo de concentração e sob o comunismo será liquidado. Esta é uma constatação otimista, mas no todo, científica, dos hábitos do 'Homo impoliticus'.

(...)

- Até mesmo a definição grega de 'Anthropos', Aquele que Olha para Cima, não é precisa. Depois da adolescência o homem raramente olha para cima de sua própria altura."


Novamente, sem necessidade de comentários.